Uma História

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Meu bisavô foi o médico tenente da real marinha italiana que, em 1914, participou da primeira missão diplomática italiana à Shangai. Ficou um tempo por lá estudando, transferiu seus conhecimentos a seus filhos, minha mãe, sua neta querida, amava o campo e me ensinou a caçar patos e perdizes nos lagos e campos de oliveiras, perto de nossa Villa, na Toscana.

Essas histórias povoam minha infância, só pude voltar para lá na adolescência, à procura delas, mas somente as velhas oliveiras tinham ficado.

A segunda guerra mundial mudou nossa vida, a origem judaica de meu pai fez com que fôssemos perseguidos e, no fim dos anos 40, viemos para a América do Sul. No início dos anos sessenta minha mãe comprou uma propriedade em Punta del Este, no Uruguay, onde passávamos os verões. Apesar de não haverem oliveiras por lá me enamorei pelo campo uruguaio e quando finalmente consegui comprar um campo no alto de uma colina, de onde ao longe se vê o mar, revi as velhas oliveiras me esperando … mas a vida, silenciosamente sem eu me dar conta, me levava para muito longe… e é aí que surge Punta Lobos.

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É difícil entender do que um sonho se alimenta.

Fazem 30 anos desde a minha primeira tentativa de plantar oliveiras em Punta del Este e o primeiro passo seria comprar mudas de boa qualidade e os melhores viveiros estão em Pistoia na Toscana, escolhi o melhor, minha intenção era não somente adquirir plantas de boa qualidade, mas receber informações práticas, criar relações, aprender “ao vivo” sobre o mundo da olivicultura, uma vez que, por ser pioneiro no Uruguai, essa cultura não existia, e a minha se resumia a livros, artigos técnicos, fotografias e a meus sonhos.

Tomei o cuidado de chegar um dia antes em Florença temendo que o viverista nem se desse ao trabalho de atender um pequeno “agricultor” da América do Sul… mas para mim seria o encontro de minha vida… Sempre achei que o mundo das oliveiras fosse feito de respeitáveis e enrugados senhores com boinas bascas e ternos escuros; qual não foi minha surpresa quando vi estacionar um Alfa Romeo conversível, com dois personagens exatamente como os descritos acima, mas 40 anos mais jovens… rapidamente entenderam o que significava para mim esse encontro e, numa bela tarde de outono, fomos conhecer a Universidade del’ulivo e o magnífico viveiro deles.

Como despedida, me levaram a uma última visita: conhecer a oliveira vencedora de um -concurso de beleza-, que pertencia a uma jovem viúva. Apesar de não estar preparado para apreciá-la, a oliveira era linda! (a viúva também!). A jovem viúva e agora herdeira de um pequena olivar, me convidou para descermos a sua cantina para provar o “olio nuovo”. A temperatura a luz o aroma de uma cantina quando as azeitonas foram recém-moidas é perturbador. Ela encheu uma garrafa. Era o fim de um dia de sol e ele entrava pela pequena porta da antiga cantina, levantei a garrafa e, na contraluz, vi ouro, ouro líquido… como um raio (de sol) esse suco de azeitonas chegou com sua história para minha vida.

Plantar essa cultura no campo uruguaio, não somente árvores, seria o nosso sonho.

 

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“um fio invisível conecta os que estão destinados a se encontrar, o fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá se partir”
(uma antiga lenda chinesa)